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sábado, 21 de maio de 2011

Algumas considerações sobre a música flamenca com base no estudo de Fabiano Zanin

Durante toda sua carreira, La Morita foi vista em cena ao lado de seu marido, o cigano guitarrista flamenco Loska Santana.  Após seu falecimento, uma das parcerias mais memoráveis, que chegou a remeter à lembrança dos áureos tempos de Morita e Santana, foi a parceria de La Morita com Fabiano Zanin. A guitarra de Fabiano Zanin é direta e pura, valoriza o cante e domina o compás (tempo Flamenco); nela, sem dúvida, podemos nos lembrar de Santan que tocava com sentimento e garbo.


na foto: Fabiano Zanin


Fabiano Zanin é também um pesquisador e estudioso da música flamenca. É com base num artigo que ele publicou numa revista científica, sobre a música flamenca, que eu ousei destacar alguns trechos que considero de fundamental importância para nós, bailaores de Flamenco que ansiamos por compreender toda essa complexidade musical característica da música flamenca.




O artigo escrito por Fabiano Zanin tem por título " O VIOLÃO FLAMENCO E AS FORMAS MUSICAIS FLAMENCAS " e foi publicado na Revista Científica./FAP, Curitiba, v.3, p.123-152, jan./dez. 2008.

Zanin coloca que o Flamenco é uma manifestação artística espanhola que se realiza por meio do toque, do cante e do baile e enfatiza o quanto o flamenco é nômade, pois , desde que saiu de seu berço - Andaluzia - não encontrou mais fronteiras, tendo inclusive muitos representantes que nem se quer espanhóis eram.

"Desde os anos 1920, o Flamenco ultrapassou as fronteiras geográficas da Andalucia, onde se originou. Segundo Espada (1997), artistas importantíssimos para a história e transformação desta arte, como a  bailaora  Carmen Amaya (1913-1963), ou o  guitarrista Sabicas (1912-1990), não eram de origem andaluza.  Podemos citar também a bailarina Antonia Mercé (1888-1936) – La Argentina – que não era andaluza, tampouco espanhola e, segundo alguns autores, como Espada (1997, p. 58) e Barrios (1989, p. 41), foi considerada uma das principais artistas de seu tempo."
(Fonte: ESPADA, Rocío. La Danza Española su Aprendizaje y Conservación. Madrid: Esteban Sanz, 1997, apud ZANIN)


Os fragmentos a seguir eu apenas selecionei do artigo do Zanin pois considero muito importantes para nosso estudo:

SOBRE O RITMO (PALO) NO FLAMENCO


          Cada Palo Flamenco é formado por uma cadência e por um compás, isto é, um ritmo bem definido que o caracteriza e nomeia. Segundo Lola Fernández existe quatro tipos de compás Flamenco: 

“En el flamenco se dan cuatro tipos de compases:  binario, ternario, compás de doce o alterno y compás 
interno o aparentemente libre, siendo también característica de algunos cantes  la polirritmia o superposición de hasta tres compases diferentes.” 

O COMPASSO DE DOZE TEMPOS 

Diferentemente de nosso ritmo musical multiplicativo, ou seja, dos padrões rítmicos com origem na multiplicação ou divisão (normalmente por dois ou três), alguns ritmos Flamencos se apresentam de uma forma aditiva.   Segundo Ann Livermore, encontramos ritmos irregulares – principalmente os que alternam o compasso 3/4 com o 6/8 – por toda a península Ibérica. Este tipo de alternância é comum ao Flamenco, como no ritmo Flamenco chamado  Petenera, que se constrói desta maneira.   Este compasso de doze tempos se apresenta por meio de várias alternâncias rítmicas, tais como:  2+2+3+3+2 ou  3+3+2+2+2. Tais alternâncias nos dizem a que grupo este  Palo pertence. A primeira alternância citada, por exemplo, corresponde ao grupo do  Palo de Seguiriya e a segunda ao grupo do Palo de Soleá, ou Soleares. Cada grupo rítmico nos apresenta uma série de possíveis Palos. Encontramos no grupo de Seguiriya, por exemplo, os Palos de Seguiriya e Bulerías. Esses Palos possuem o mesmo compás  de doze tempos, dividido de maneira diferente em cada caso, e utilizam o mesmo modo musical, sendo, porém, completamente diferentes quanto ao caráter e inspiração, tempo e divisão interna.

Para compreender melhor o compasso de doze tempos, o autor fez uma representação, de uma maneira abstrata, utilizando a colcheia como unidade de tempo. 








 A SOLEARES 

A Soleá, segundo José Blas e Manuel Ríos Ruiz é um cante Flamenco que possivelmente se originou na primeira metade do século XIX. Sua copla é formada por quatro ou três versos octossílabos. 
O compás de Soleares, ou Soleá, se apresenta da seguinte maneira: 

                                                                                                     



 VEGA Y RUIZ, Maestros del flamenco. Planeta Agostini, s.d. p. 15. 

                          
O 1 e o 2  localizados depois do tempo 10, no grupo do Palo de Soleá, tem a função de ponte, isto é, estes dois tempos realizam a ligação entre duas falsetas. O cierre, ou remate, é realizado no tempo 10, tendo os tempos 7, 8 e 9 como preparação. Acerca disso escreve Lola Fernández: “El compás de doce reduce en dos sus tiempos para finalizar el cante, acabando en el diez de la cuenta flamenca. En este número se producen también los cierres, otro elemento característico del flamenco que se da con regularidad a lo largo del cante”

 Por meio do relógio Flamenco ( FERNANDÉZ, Op.cit., p.8 .), podemos perceber a divisão dos doze tempos no grupo do Palo de Soleá, como também seu início e término.






Classificacion de Los Palos por Compás






GLOSSÁRIO 




A compás.  Baile ou cante Flamenco que segue fielmente o ritmo ou cadência do 
estilo correspondente.   
A Palo seco.  Cante que se acompanha sem acompanhamento de guitarra. 
Aflamencado. Canções ou  bailes procedentes do folclore andaluz ou outros, assim como materiais musicais diversos que se interpretam com entoação e compás Flamencos. 
Aire.   Cante ou baile próprio e característico de uma comarca.` 
Al aire. Tocar a guitarra sem cejilla (capotasto). 
Ayear.   Consiste na pronunciação de vários  ayes pelo  cantaor durante a interpretação do cante. 
Ayeo.  Ação e efeito de ayear. 
Bailaor.  Intérprete do baile Flamenco.  
Café cantante. Local onde se ofereciam bebidas e recitais de  cante,  baile e  toque Flamencos. Esses locais viveram seu auge na segunda metade do século XIX, entrando em decadência nos primeiros anos vinte do século XX. 
Cantaor.  Intérprete do cante Flamenco. 
Cante.  Significa efetivamente canto Flamenco.  
Cante a compás. É o  cante que é realizado dentro da medida, ritmo e cadência que o 
próprio cante requer, e ocorre em perfeita conjunção entre intérprete e 
acompanhamento de guitarra. 
Cante jondo. Expressão utilizada para referir-se a determinados estilos do cante 
Flamenco, nos quais se aprecia o primitivismo profundidade e força 
expressiva. 
Cejilla. Capotasto, típico recurso da guitarra flamenca, é utilizada  para dar ao 
cante o tom adequado a cada estilo. Seu emprego data da  segunda 
metade do século XIX. 
Compás  No contexto do Flamenco, medida de uma frase musical com sua acentuação correspondente, segundo o toque da guitarra. 
Desplante.  Série de golpes fortes dados com o pé contra o solo. No Flamenco se emprega como remate de outros passos, correspondendo-se na guitarra aos rasgueos que se encontram no final da melodia. 
Duende  Segundo a definição do Dicionário da Real Academia  da Língua Espanhola: “é o encanto misterioso e inefável do cante”. 
Falseta.  Frase melódica ou floreio que o  tocaor executa, quase sempre de maneira ponteada, entre uma copla e outra ou antes do cante. 
Floreo.  Ação de florear a guitarra; adorno realizado pelo  cantaor ao produzir uma sucessão de melismas; no baile se constitui de  uma série de movimentos realizados ao se sapatear. 
Jaleo.  Ação de  jalear, conjunto de expressões, locuções admirativas e interjeições em forma de gritos intuitivos e espontâneos, para expressar entusiasmo ou para animar os intérpretes.  
Hacer son.  Acompanhar um cante ou um baile com palmas, a golpe ou com estalar 
de dedos (pitos).                                           
Llamada.  No baile Flamenco, nome que designa o conjunto dos  primeiros movimentos que executa  a bailarina flamenca ao começar o desplante, pretende ser uma espécie de aviso ao tocaor. 
Macho.  Estrofe geralmente de três versos, que se soma a certos  cantes para  rematar-los. 
Melisma.  Grupo de notas sucessivas cantadas sobre uma mesma sílaba. 
Palmero.  Componente do grupo Flamenco especializado em acompanhar os cantes e bailes Flamencos com palmas. 
Palo.   Refere-se a cante Flamenco, tipo de cante, estilo. 
Pito.   Som realizado ao estalar os dedos. 
Por abajo.  Refere-se ao tom dado pelo guitarrista ao cantaor, equivalente ao som 
de lá maior. 
Por arriba.  Refere-se ao tom dado pelo guitarrista ao cantaor, equivalente ao som 
de mi maior. 
Por médio. O mesmo que por abajo. 
Rasgueo.   Consiste em roçar os dedos da mão direita desde o mínimo até o 
indicador, ou vice-versa. 
Rasgueado. O mesmo que rasgueo. 
Tablao. Cenário dedicado à arte flamenca, local especializado em oferecer 
espetáculos Flamencos. 
Taconeo.  Refere-se ao baile Flamenco, o mesmo que sapateado. 
Templar. Afinar a guitarra; também se refere ao cante quando o  cantaor realiza 
el temple. 
Temple. Toda a série de sons realizados pelo cantaor antes de executar a copla, 
serve para situar o  cantaor no tom que esta sendo proposto pelo 
guitarrista. 
Tercio.    Cada um dos versos de que consta uma copla do cante Flamenco

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Sapatos para FLAMENCO - em busca de um sapato ideal

Uma das maiores dificuldades pra quem vai começar a aprender Flamenco é encontrar um sapato de qualidade, que ajude em sua dança. Geralmente a pessoas procuram os catálogos de dança que revendem artigos para ballet , jazz e sapateado e acabam comprando sapatos de dança de salão com preguinhos, vendidos para flamenco.  Esses sapatos não dão o suporte necessário para os pés e joelhos além de não durarem muito tempo, não aguentam o tranco de ensaios e aulas e logo estão se desmantelando.

Segundo Triana Ballesta, aluna de La Morita, quando a bailarina La Morita chegou no Brasil, diante desta dificuldade, procurou o melhor artesão de sapatos da cidade de Curitiba - Aquelino Masiero. Foi então que ela e Masiero criaram juntos um sapato especial para o Flamenco, vendido aqui no Brasil.  Para chegar a esse modelo exato, La Morita desmanchou 3 sapatos espanhóis seus.  Mas não foi em vão. O sapato desenvolvido por Masiero é de uma qualidade impecável. O couro é de uma espessura que sustenta realmente os ligamentos. Eu posso garantir a qualidade do sapato Masiero pois possuo um sapato feito por ele há 13 anos que ainda está em excelente estado.

Recentemente, adquiri um sapato de outra marca, por ter recebido indicações e qual não foi minha decepção ao calçar o sapato e perceber que o mesmo rasgara.  Ao tentar ser reembolsada, apenas consegui que trocassem o produto. Mas de que adianta trocar o produto se agora eu não sei quanto tempo vai durar esse sapato? É interessante que a mesma aluna, Triana Ballesta, recebeu informações de que Masiero não confeccionava mais sapatos flamencos. Certamente a pessoa que passou essa informação deve revender esta outra marca que é bastante afamada na atualidade.

Enfim, para minhas alunas, assim como La Morita, eu recomendo os sapatos masiero. Quem ainda não possui, pode adquirir com tranquilidade em saber que terá um sapato pra eternidade.

Pra encerrar, vou postar uma linda matéria publicada na Revista Idéias sobre o artesão Aquelino Masiero,

Espero que apreciem e que seja útil a alunos e bailarinos pois eu penso que um sapato flamenco não tem que apenas ter design, ele tem que ser anatômico, dar sustentação ao pé (pra isso precisa de uma espessura de couro adequada, não um istmo) e ser resistente pra aguentar o tranco de aulas, ensaios e shows.

Yasmine Amar




A arte do sapateiro




Revista IDEIAS. Política, Economia & Cultura do Paraná

Em Curitiba, uma sapataria que começou suas atividades em 1970 ainda fabrica sapatos de maneira artesanal. A Masiero Calçados fundada por Aquelino Masiero. A história começou assim: na época ele mudou-se do Rio Grande do Sul para Curitiba para reabrir sua sapataria que havia incendiado na cidade de Novo Hamburgo. A Nina Sapataria instalou-se ao lado da Santa Casa de Misericórdia e teve os funcionários do hospital como sua grande carteira de clientes. Em 72 apareceu uma oportunidade de compra de um ponto e ele mudou-se para a Rua Trajano Reis. Neste endereço ele deu novo nome para seu negócio: Sapataria Rosário. Continuou a fazer artesanalmente calçados especiais e ortopédicos sob medida, além de consertos em geral. A partir daí começou também a fazer sapatos para sapateado, dança flamenca, botas para tiro ao alvo, calçados para desfiles de carnaval e outros tipos diversos como sapatos para artistas.
Em julho de 1980, adquiriu ao lado um espaço pouco maior de 30m² e abriu uma pequena loja. Além de todos os serviços que já fazia começou também a fabricar calçados com tamanhos especiais. Algum tempo depois comprou um antigo prédio nesta mesma rua esquina com a Treze de Maio. Após uma reforma instalou uma nova loja, bem maior, com 300m², que passou a chamar-se Masiero Sapataria Rosário. Além do que já fazia especializou-se em numerações grandes para homens e para mulheres. Mais tarde abriu uma filial na Rua João Negrão onde manteve a mesma tradição da matriz e incluiu ali a linha infantil. Em 2005 a matriz foi ampliada e reformada para melhor atendimento aos clientes, momento em que a logomarca foi redesenhada:Masiero Calçados.
Aquelino Masiero é mais que um sapateiro, é um artista. Apaixonado pelo que faz, considera-se um artesão do calçado. Quando jovem fez o curso de modelagem enquanto aprendia o ofício. No dia do seu noivado presenteou sua noiva com um par de sapatos preto, feminino, uma miniatura. Obra que foi admirada por sua perfeição, uma verdadeira história de Cinderela e seu sapatinho de cristal. Quando a primeira filha nasceu foi presenteada por um par de botas cor-de-rosa confeccionado por ele. Hoje, com mais de 70 anos de idade, Aquelino está aposentado e quem dirige suas lojas são seus filhos. Mas nem por isso ele perdeu a paixão pela profissão e continua ativo. Fez uma fôrma fora do padrão, fabricou um par de sapatos nº 67, inspirado no maior homem do mundo que é um chinês e gostaria de um dia poder calçá-lo. Foi além, fez outra fôrma ainda maior que o ocupou três meses de trabalho. E sua habilidade e criatividade não param por aí. Com sua esposa e um antigo funcionário confeccionou um par de sapatos nº 183, digno de Sasquatch. Trabalho que lhe custou três couros de boi entre o corte e o forro, solado e salto. Estas excêntricas criações servem como decoração da loja e são muito admiradas. Agora também desenvolvem uma nova linha de tamanhos especiais para pés femininos pequenos.
Admirado pelos seus oito filhos, 16 netos e 12 bisnetos por sua dedicação e perseverança, Aquelino deixa uma lição: para ter sucesso é importante a honestidade, o conhecimento, a cordialidade com os clientes e respeito aos funcionários.
Não há como negar que o manufaturado e o industrializado não concorrem entre si. Cada um à sua maneira torna-se indispensável. O industrializado possui toda a tecnologia e funcionalidade. Já o artesanato confunde-se com a história da humanidade, pois a necessidade dos bens de utilidade para o dia a dia fez a criatividade surgir como forma de trabalho. Por isso, a arte de Aquelino é singular e individual. O artesão dedica-se exclusivamente a uma peça de cada vez, sem pressa, com poesia. 
ARTE RARA
A necessária arte de fazer sapatos manufaturados está cada vez mais rara em consequência da franca industrialização. A questão é: os sapatos produzidos em série têm a mesma qualidade que os feitos à mão? Pergunta difícil de responder uma vez que o artesanato tem o capricho e a particularidade do pé de cada um e a industrialização tem uma tecnologia que está sempre em avanço. Quem sabe Aquiles com uma bota do século 21 perdesse sua vulnerabilidade.
O primeiro calçado foi registrado na história do Egito, por volta de 2000 a 3000 a.C. Era uma sandália composta por duas partes, uma base de tranças de cordas de raízes e uma alça presa aos lados que passava sobre o peito do pé. Porém, muitos afirmam que o homem da pré-história já usava uma espécie de proteção nos pés, pois entre os utensílios de pedra da época existem muitos que serviam para raspar a pele, o que mostra que a arte de curtir é muito antiga. Feidípides, o famoso ateniense que fez o percurso entre Atenas e Esparta por motivo da invasão pelos persas à Maratona, além de força e resistência, com certeza precisou de um bom calçado. Há registros de que no ano 6 mil a.C. os primeiros artesãos surgiram no momento em que transformaram elementos da natureza em objetos de uso.

Masiero Calçados

Rua Trajano Reis, 80 - São Francisco
Curitiba - PR, 80510-220
(0xx)41 3222-199







Sobre o Flamenco...



O Flamenco é um estilo musical e um tipo de dança fortemente influenciado pela cultura cigana, mas que tem raízes mais profundas na cultura musical mourisca. A cultura do flamenco é originária da Andaluzia em Espanha, mas tornou-se um dos ícones da música espanhola e até mesmo da cultura espanhola em geral.

O ?Novo flamenco? é uma variação recente do flamenco que sofreu influências da música moderna, como a rumba, a Salsa, o pop, o rock e o jazz

"Originalmente, o flamenco consistia apenas de canto (cante) sem acompanhamento. Depois começou a ser acompanhado por guitarra (toque), palmas, sapateado e dança (baile). O ?toque? e o ?baile? podem também ser utilizados sem o ?cante?, embora o canto permaneça no coração da tradição do flamenco. Mais recentemente outros instrumentos como o ?cájon? (uma caixa de madeira usada como percussão) e as castanholas foram também introduzidos." Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre

Sobre o "Nuevo Flamenco"

Há quatro décadas o flamenco vêm se modernizando, com isso as escolas na Espanha voltam a revalorizar o flamenco puro, tentando recuperar a escola da dança espanhola completa, onde se dança com todos os elementos, leques, castanholas, manton, xales, entre outros.

Sem deixar de apreciar a destreza do baile rápido, além de ser dificílimo, o que vemos hoje é que as bases estão sendo deixadas para trás, além de um estilo de baile agressivo que pode até assustar o público no lugar de curtir calmamente o desenvolvimento do sentimento e a evolução de uma coreografia. Também não vemos as diferenças entre um baile de seguiriya, soleares, bulerías, taranto ou etenera que não devem ser bailados do mesmo modo.

Etapas importantes para a formação do aluno são puladas. Normalmente, para alguém se tornar um solista, a verdadeira escola demora muito anos. Nesta preparação é a fase do "abc" das coisas, pois sem saber o abecedário ninguém pode ler. Infelizmente, isso é o que acontece atualmente com a dança flamenca. Aulas de exercícios violentos que não respeitam o ritmo de aprendizado dos iniciantes, formadas por grande número de componentes, onde não acontecem as devidas correções de um aluno de cada vez; aulas que são mais demonstrativas da destreza de um maestro que muitas vezes não tem a paciência de observar cada aluno. 
É necessário o tempo. Podemos competir com qualquer coisa menos com o tempo. O tempo é necessário para fazer a cabeça, os músculos, o raciocínio e o entendimento do tema.

O que estamos presenciando é um flamenco moderno com muitas fusões. O flamenco é uma dança difícil de ensinar, aprender, interpretar e sentir. Sentir é o mais importante e é o que menos se vê. A grande preocupação é o virtuosismo, a rapidez, a energia e até os malabarismos, numa corrida contra o tempo, com mal aprendizado das bases e que formam solistas despreparados que aprenderam uma coreografia de laboratório ? passada de um bailarino para outro ? e já sobem ao palco e se chamam de solistas.

Os flamencólogos em seu desesperado intento de salvar algo tão rico como a pureza do flamenco lutam e tentam fazer um resgate urgente das origens. A Espanha, berço da dança espanhola e flamenca, é a primeira culpada pela situação.

Devido a quantidade de artistas dedicados a esta arte, mas com poucos lugares para trabalhar, além de mal remunerados, estes acabam usando como alternativa uma criatividade baseada na fusão que anteriormente falamos das danças modernas, misturando elementos das danças americanas para chamar a atenção e realizar um trabalho de dança flamenca estereotipada, às vezes, ridícula, com falta de talento e emoção. E este é o drama que vem sendo vivenciado por esta preciosa arte.

Onde está o sentimento? É tão difícil um baile flamenco preparado onde o artista emana das entranhas mais profundas de seu ser a alegria, a tristeza e o drama, chegando até a entrar em um transe. O culpado do malabarismo ridículo. Já não vemos mais bailaores como Rafael de Córdoba, artista espanhol esquecido e que se sobressaiu numa época de escassos meios de difusões, como também Guito, Mário Maya, Carmem Amaya, entre outros. Posteriormente, sabemos que o flamenco renasceu através da trilogia de Carlos Saura, Antônio Gades e Cristina Hoyos com os filmes Bodas de Sangue, Carmem e Amor Brujo, com o extraordinário guitarrista de música flamenca Paco de Lucia e o também experiente cantaor Camarón de la Isla.

Quando cheguei no Brasil, em 1980, ainda não existia aqui o flamenco, mas apenas a popular dança espanhola. Como pioneira, minha proposta hoje nesta terra bendita é recuperar o flamenco autêntico da Escola Clássica Espanhola e da Escola Bolera, assim como as danças regionais.

Hoje se fazem profissionais em dois anos, ou menos, e se fala que o flamenco tradicional é antigo. Será que o flamenco não é mesmo antigo? Afinal data do século XVI. Na Espanha, existem especialistas da guitarra, do cante, do baile e os palmeiros. Essas são as origens. Essa é minha proposta a todos os interessados nesta arte tão difícil. Fazer um trabalho sério.

Tenho orgulho do meu trabalho, sobretudo do dom que Deus me deu, do meu aprendizado de muitos anos e grande respeito aos meus maestros. O flamenco não se aprende em cursos de 15 dias com professores que vêm da Espanha, cobram dinheiro extravagante e ensinam pouca coisa. Assim como quem vai à Espanha para voltar logo e traz um certificado de um curso de 15 dias, 30, 40 ou no máximo 90 dias que é o limite permitido de estadia aos estrangeiros, dizendo que seu flamenco é importado e fazendo um currículo falso.

O flamenco é um estilo de vida, de pensamento, dedicação e sobretudo talento. A concorrência que há hoje entre falsos profissionais que se dizem competentes é uma enganação em cima de um povo com desejos de aprender esta arte e que, por não ter pontos de referências, são enganados dia-a-dia na base do comércio da arte.

Eu estou unida aos flamencólogos que lutam na Espanha para resgatar a pureza, a nobreza e a autenticidade do flamenco da dança espanhola que é realizado através da comunhão de três elementos, o bailaor, o cantaor e o tocaor. Não se deve usar os meios para outros fins. E para terminar, como sempre digo, quem entra no flamenco nunca sai e se sair é porque nunca entrou, assim como quando se é jovem temos a energia e quando se é velho temos a sabedoria. E se não existe a sabedoria o que é que fica?

(*) La Morita é bailarina e coreógrafa, tem 60 anos, é argentina, reside em Curitiba e dança desde os 8 anos de idade.